POR QUE EU PULO O CARNAVAL

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POR QUE EU PULO O CARNAVAL

*Por Miguel Uchôa

 

Na minha primeira juventude, já não sei mais em que juventude estou agora, eu pulei carnavais. Na realidade, nós nos preparávamos para esse período. Sou do tempo em que havia um curso no centro do Recife e os bailes dos clubes faziam o clímax da festa. Prévias eram o “Carnaval em Preto e Branco”, do Cabanga Iate Club, e o “Mamãe Quero Voar”, do Clube de Oficiais da Aeronáutica. Olinda? isso não fazia parte da agenda. Carnaval de rua muito menos.

Digo isso para que alguém não se antecipe e me julgue como sendo um daqueles que diz que o livro não presta sem sequer ter lido o prefácio. Sim, eu pulei intensamente alguns carnavais. Conheço bem mais do que o prefácio dessa festa.

Hoje, eu PULO O CARNAVAL (PULO – do verbo pular, saltar por sobre). Entendi que existe uma hierarquia nas coisas deste mundo e que elas devem estar relacionadas sempre com o mundo espiritual. Desde então, passei a pensar da seguinte forma: “O que Jesus faria em meu lugar?” Lembra do livro, filme, pulseira? Lembre então do evangelho. Por isso entendi que não deveria gostar daquilo que Jesus não gosta, amar o que ele não ama, estar onde ele não estaria, me deleitar naquilo que Ele repudia. Por isso eu hoje, literalmente,PULO O CARNAVAL.

Pulando o carnaval –

PULO O CARNAVAL, porque não acredito mais na festa como uma expressão apenas cultural. Não costumo demonizar a cultura, mas presto atenção para ver onde o demônio está misturado na cultura. Isso eu faço. O carnaval é uma festa ambígua, não posso deixar de ver o lado cultural de tantas manifestações do espírito do artista brasileiro. É indiscutível que a criatividade do povo não se esgota. Muitos vão se lembrar da história daquele folião que vinha no meio da multidão, puxando uma coleira e gritando vem Bob, vem Bob! As pessoas abriam caminho com receio de um cachorro, para depois perceberem que ele apenas puxava um “bob” de cabelo. Apenas uma entre tantas outras iniciativas hilárias.

No entanto, é inegável que o carnaval não se restringe a isso. Há muito perdeu a ênfase folclórica para dar vez a uma busca por algo mais, um extravasamento do ser que persegue uma satisfação qualquer e que em nome disso esquece qualquer limite e se entrega a tudo e a todos. Como em tudo, não podemos generalizar, mas não há como negar que essa é a ênfase da grande maioria, o que vem tornando a festa cada vez menos segura e cada vez mais um terreno fértil para o consumo exagerado de bebidas, o uso de drogas, e a prática de uma sexualidade desenfreada. Como cristão, esse não é o meu lugar, não preciso disso, não estou em busca dessa alegria regada a prazeres da carne, que depois retornam com a depressão da alma. Se você é um cristão(ã), saiba que esse não é o seu lugar.

PULO O CARNAVAL, porque existe na festa um componente espiritual muito forte e verdadeiro. Nunca duvide disso. Não seja ingênuo(a) em dizer que “se para você esse não é o sentido, não me atinge”. Ledo engano. Ninguém passa por uma carvoaria de roupa branca e sai sem estar manchado de preto. O espírito que domina este mundo está intensamente presente nessa festa. A maior prova está na dedicação da festa. Em todos os cantos, com diferentes aparatos e máscaras culturais, esta festa é entregue ao deuses e orixás. Ano passado, o líder de um dos grupos “folclóricos” disse em entrevista, falando sobre a noite dos tambores silenciosos: “Este é um momento de entrega, um momento religioso; esta festa é uma festa religiosa para nós, estamos entregando a festa aos orixás”, falou o líder em entrevista ao jornal NeTV, da Rede Globo de televisão. Se você é um cristão(ã), esse é o ângulo sob o qual você precisa observar essa festa. Não há como participar disso tudo e não ser parte disso tudo. Essas coisas são inseparáveis.

PULO O CARNAVAL, porque quando conheci a Cristo decidi pela Escritura que somente a Ele prestaria culto, que somente a Ele meus lábios louvariam. Você também pensa assim? Pois bem, portanto, preste atenção nas letras das musicas do carnaval, que, por detrás de um ritmo alucinante, podem esconder outras coisas. Talvez alguém se lembre de um dos mais novos blocos do carnaval do Recife, que se chama “Culto a Baco”, criado em 2007. Para quem não sabe, grito de “fé” desse bloco irreverente é: “Eu não vou ao culto orar, eu vou ao culto a Baco!” Ora, Baco é o mitológico Deus do vinho, e não precisa ir mais adiante para perceber que isso vai além de uma simples irreverência. Talvez isso seja difícil de entender para alguém que não conhece a Cristo e confessa essa fé, mas você que sabe disso pode facilmente perceber o que de fato está por detrás dessa festa. Nada mais contagiante do que os desfiles das escolas de samba, especialmente as do Rio de Janeiro. Mas seria ingenuidade ou cegueira eletiva tentar omitir de nossas mentes que por detrás de tudo aquilo está um componente espiritual muito intenso. Muitas das letras dos sambas-enredos, além de passagens históricas, fazem alusão e louvação a entidades do candomblé e de outras tendências religiosas espiritualistas. Não é novidade para ninguém que, os líderes destes grupos são em sua maioria esmagadora devotos de “santos guerreiros”, filhos de “santo” e com suas histórias totalmente ligadas a estas práticas, trazendo assim para suas escolas a louvação a estas entidades, o que compromete a imparcialidade espiritual do movimento. Se você é um cristão(ã) pense nisso para formar a sua opinião e para informar a quem tem ainda dúvida.

PULO O CARNAVAL, porque como cristão entendi que minha vida deve servir de exemplo em tudo e não levantarei minhas mãos ao céus para dizer frases que não louvem a Deus e sim a falsos deuses; não terei prazer naquilo que não dá prazer ao meu Senhor, não é para mim alegria aquilo que entristece o coração de meu Deus. A festa pode ser bonita, e em muitos casos é, mas o diabo se faz de cordeiro para iludir a muitos. Eu não serei um desses, meu entendimento mostra, minha razão testifica que essa festa é algo que não me diz respeito. Se você e um cristão(ã), está na hora de pensar que tipo de exemplo você deseja ser.

PULO O CARNAVAL, porque além de tudo isso e de muitas outras coisas que poderiam aqui ser colocadas, quero ser alguém que faz diferença. Com estes exemplos e com a prática de um período de exageros e, como citei, extravasamentos do ser, esta festa se torna a cada dia e de fato a festa da carne, e os cristãos, por não se sentirem motivados ao extravasamento da carne e sim à busca de um controle de seus impulsos carnais e a busca de uma vida limpa e pura diante de Deus, devem se afastar desse momento e devem ensinar aos seus filhos que da mesma forma se afastem de tudo isso. Toda a raiz está comprometida, as intenções estão maquiadas, e a espiritualidade pagã permeia toda a festa. Tenho dito que por detrás da mais simples fantasia de uma festividade infantil escolar nesse período, está uma intenção espiritual que reveste toda a festa. Não há como separar. Se incentivo meu filhinho a se fantasiar hoje e participar das festividades, não poderei me queixar se, quando jovem ou adulto, ele deseje seguir adiante e se envolva na totalidade da festa, se expondo a estes riscos e à contaminação espiritual. O que a sabedoria de provérbios diz é que devemos ensinar a criança no caminho que ela deve andar e quando adulta não se desviará desse caminho!

Como Bispo e líder espiritual da Diocese de Recife e como Reitor da PAES, quero dizer que essa é a nossa posição e a postura que espero de todos os cristãos que estejam sob minha cobertura espiritual, para que também se decidam por PULAR O CARNAVAL. (PULO – do verbo pular, saltar por sobre).


*Miguel Uchôa é bispo da Igreja Anglicana – Diocese do Recife).